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quarta-feira, 8 de junho de 2016

Invisibilidade das escolas de samba: É preciso debater!

Por Cristiane Lourenço*

Um dos assuntos mais comentados nos últimos dias foi a participação da Portela em um programa de competição culinária. Durante a exibição do programa, o nome Portela foi um dos mais comentados nas redes sociais. Ver a Portela na TV numa terça-feira à noite encheu-nos de orgulho, alegria e deixou a todos nós com a sensação de querer ver mais vezes as agremiações fora do contexto ensaio-desfile.

O SRZD e outros veículos especializados em Carnaval (sites, blogs, colunas) contribuem para que a festa de Momo e as escolas de samba estejam em evidência durante todo o ano. Esta contribuição é fundamental para que a cultura carnavalesca não seja esquecida e para que todas as agremiações sejam lembradas, independentemente de estarem no grupo de elite ou nos grupos intermediários. Porém, raramente uma escola de samba aparece em outros veículos de comunicação, salvo quando uma celebridade "dá pinta" em alguma feijoada.

Sou de um tempo em que a agremiação campeã era figura constante dos programas de televisão, sou de um tempo em que se ouvia samba-enredo nas rádios. Se há alguns anos as agremiações se faziam presentes em programas de auditório, estavam nos programas de rádio, hoje isto é algo raro. Não mais ouvimos notícias das escolas na rádio, na internet, nos jornais, salvo nos canais especializados. As escolas aparecem na televisão entre dezembro e fevereiro por alguns minutos diários no telejornal local da detentora dos direitos de transmissão dos desfiles. E a TV sobrevive de audiência. Funciona assim, amigo sambista: só aparece na televisão o "produto" que é visto pelo público e consequentemente traz retorno financeiro. Se o Carnaval não aparece é porque não traz este tipo de retorno. Se não dá audiência, está cortado. Simples assim.

Ainda na semana passada, uma pesquisa divulgada pelo instituto Datafolha revelou que 56% das pessoas residentes no Rio de Janeiro nunca estiveram no Sambódromo para assistir ao desfile das escolas de samba. Os dados apresentados e as nossas percepções vendo o cotidiano das agremiações apenas reforçam a luz vermelha que está acesa há tempos quando pensamos no futuro das escolas de samba: o distanciamento das escolas de suas comunidades, a cultura do espetáculo sem a preocupação com a essência do samba, a subordinação do Carnaval às exigências do mercado e dos contratantes, os preços aviltantes dos ingressos, estrutura ruim no entorno e dentro do Sambódromo, a descaracterização das escolas, a falta de preocupação com segmentos importantes como passistas, destaques, ala de baianas e de crianças, o desfile cada vez mais corrido e os sambas-enredo efêmeros, são alguns dos aspectos que levam ao afastamento das escolas do seu povo.

Talvez as questões elencadas acima e outras que não identifiquei no momento em que redijo este texto, mas que você certamente há de lembrar-se, sejam parte das respostas para os temas centrais de nossa conversa: por que as nossas escolas não estão na mídia? Por que as pessoas que moram no Rio não assistem aos desfiles? Assim como outros sambistas, venho falando da necessidade em se discutir os rumos dos desfiles. Esta é uma preocupação constante em todas as rodas de conversa. Debatemos, conversamos, lamentamos. Alguns nos chamarão de saudosistas, dirão que mudanças fazem parte da evolução do Carnaval. Enfim, é preciso um debate aprofundado, onde se coloque o dedo na ferida e mesmo que a dor seja profunda e o remédio seja amargo é preciso discutir o que queremos para nossas escolas.



*Colaboradora do SRZD

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